UAlg lidera descoberta sobre criatividade pré-histórica no Deserto Árabe
Ao longo dos últimos 15 anos, a equipa identificou várias centenas de locais de fabrico de ferramentas de pedra no sul de Omã, região que serviu de corredor crucial para as primeiras migrações dos nossos antepassados diretos, Homo sapiens, que saíram de África. A análise das alterações de corrosão ambiental sofridas pelas ferramentas de pedra ao longo do tempo permitiu identificar duas vagas distintas de migração, separadas por milhares de anos.
A segunda vaga destaca-se por uma notável inovação: a criação de ferramentas de pedra significativamente menores e mais eficientes durante um período de forte aridez na Arábia.
“Descobrimos uma história que estava literalmente espalhada pelo solo do deserto”, afirma Rose, autor principal do estudo. “Estas ferramentas miniaturizadas sugerem um grande salto em termos de criatividade e resolução de problemas, e podem representar um dos primeiros exemplos da nossa espécie a encontrar uma saída para uma crise ambiental.”
Detetives do clima
A equipa aplicou métodos semelhantes aos da investigação forense para estudar como as condições desérticas afetam ferramentas de pedra ao longo de milénios. Observando o desenvolvimento de uma alteração mineral da superfície dos artefactos chamada patinação, foi possível distinguir artefactos mais antigos de outros mais recentes, revelando dois grupos com estilos de ferramentas radicalmente diferentes, apesar de ambos utilizarem a tecnologia africana denominada “Levallois Nubiense”. O primeiro grupo fabricava ferramentas grandes e robustas, enquanto o segundo grupo mudou para implementos menores e mais padronizados.
Inovação para sobreviver
O momento dessa mudança tecnológica é significativo. O conjunto de ferramentas miniaturizadas surgiu durante um período em que os registos climáticos mostram que a Arábia estava a tornar-se mais árida. Os investigadores sugerem que essas pontas de pedra mais pequenas poderiam tornar as armas mais eficazes em tempos difíceis, exigindo menos matéria-prima e oferecendo maior precisão e capacidade de penetração na caça.
Um padrão global
Essa inovação árabe não aparece isolada. Tendências semelhantes de miniaturização surgiram em todo o mundo no mesmo período, sugerindo uma mudança mais ampla na capacidade humana de resolução de problemas. A posição de Omã ao longo da «Rota de Dispersão do Sul», caminho que muitos cientistas acreditam que foi a via dos primeiros humanos para saírem de África, torna esta descoberta uma peça-chave para essa transformação global.
“A Arábia tem sido, frequentemente, vista apenas como um corredor para a migração dos primeiros humanos”, explica Rose. “Mas as nossas descobertas sugerem que foi um cadinho, um campo de provas para a engenhosidade e resiliência humanas, onde apenas os mais adaptáveis conseguiam sobreviver ao seu clima rigoroso e continuar a expansão humana.”
A investigação, publicada este mês no Journal of Palaeolithic Archaeology, fornece novas perspetivas sobre como os nossos antepassados desenvolveram a flexibilidade comportamental que lhes permitiria, posteriormente, colonizar diversos ambientes em todo o mundo. Todos os dados e o código analítico estão disponíveis online, em conformidade com os princípios da ciência aberta.
O estudo envolveu investigadores de instituições em Omã, Portugal, República Checa, Ucrânia, Estados Unidos da América e França, destacando-se a colaboração internacional necessária para desvendar o passado pré-histórico da Humanidade.
Legenda das Fotos
Fig. 01 | Grade de recolha de superfície no local de fabricação de ferramentas de pedra Aybut Hills 3, Credit: J. Rose
Fig. 02 | Dr. Vitaly Usyk registrando artefatos líticos no local de fabricação Aybut Hills 7, Credit: J. Rose
Fig. 05 | Núcleos de sílex bidirecionais mais recentes e miniaturizados (em cima) e núcleos de sílex bidirecionais mais antigos e maiores (em baixo), Credit: J. Rose
Fig. 09 | Núcleo bidirecional mais jovem e menos desgastado (à esquerda) em comparação com um núcleo núbio mais antigo e mais desgastado (à direita), Credit: J. Rose