Projetos de I&D

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DOPE - Domesticação da Papoila-do-ópio na Pré-história Europeia

ODS2       ODS15


As discussões sobre as origens e a difusão da agricultura no Velho Mundo focam-se quase exclusivamente nas colheitas alimentares domesticadas no sudoeste da Ásia (SOA). A papoila-do-ópio (Papaver somniferum L. - doravante referida como "papoila") foi provavelmente a única colheita domesticada na Europa durante o Neolítico e uma das poucas espécies cultivadas para múltiplos fins. Famosa pelas suas propriedades narcóticas e analgésicas, foi uma das plantas mais importantes da história. Ópio, morfina e heroína são algumas das substâncias derivadas do seu látex e as sementes e óleo são consumidas em muitas culturas. Da estatueta da “Deusa da Papoila” na Creta Minoica à panaceia medieval theriac, do opúsculo De Quincey do século XIX e as Guerras do Ópio a "Heroin" dos Velvet Underground, esta planta moldou a história e a cultura do continente Euroasiático. Ainda hoje, a crise de opióides nos EUA e o financiamento do terrorismo pela produção de opiáceos são questões fulcrais para a sociedade. No entanto, a origem geográfica da papoila, progenitor selvagem e o seu papel nas sociedades pré-históricas permanecem especulativos. O projeto DOPE reúne uma equipa multi-disciplinar para responder à pergunta “Qual é a origem da papoila-do-ópio?”. Esta equipa junta especialistas sobre as primeiras sociedades camponesas da Europa, arqueobotânicas e geneticistas. Iremos responder a três questões: Q1: QUE espécie foi o progenitor da papoila-do-ópio? Q2: ONDE foi esta domesticada? Q3: COMO se difundiu o seu cultivo? P. somniferum subsp. setigerum tem sido proposto como o mais provável progenitor embora isso tenha sido questionado. A sua distribuição geográfica atual no Mediterrâneo Ocidental coincide com os vestígios mais antigos de papoila, descobertos em sítios do Neolítico Antigo em Espanha e Itália (5500-5300 AC). Tal reforça a ideia que a domesticação terá ocorrido nessa região, ao contrário da maior parte dos cultivos, domesticados no SOA (12,000-8,000 AC). Iremos sequenciar os genomas de 576 variedades selvagens e cultivadas de toda a Eurásia. Isto permitir-nos-á identificar que espécie foi o ancestral selvagem e onde foi a papoila cultivada pela primeira vez (Q1,Q2). Os mesmos métodos genómicos foram usados com sucesso pelo IR para investigar a domesticação do trigo e da lentilha[A,B]. Levaremos a cabo a flutuação de sedimentos de sítios Neolíticos do Sul de Portugal. Isto irá revelar se a papoila estava difundida por todo o Mediterrâneo Ocidental ou se era uma particularidade regional em Itália e Espanha (Q2). Iremos assim também fornecer o primeiro estudo sistemático do uso de plantas no Neolítico do extremo-ocidental do Mediterrâneo. A morfometria geométrica da forma de 4,000 sementes arqueológicas e modernas de papoila (selvagem e cultivada) irá oferecer uma imagem temporal e espacial de todo o processo de domesticação e difusão. Detetaremos grupos morfológicos em sementes do mesmo período por toda a Europa, inferindo daí rotas de difusão (Q3). Registaremos também alterações ao longo do tempo da forma e tamanho das sementes que possam informar sobre tendências do processo de domesticação. O Co-IR concluiu um estudo-piloto que comprovou a eficácia desta técnica. Faremos datações de radiocarbono em 30 sementes de papoila recuperadas de sítios Neolíticos de toda a Europa. Até agora, a história da papoila baseava-se em vestígios dispersos de sítios datados indiretamente. O pequeno tamanho das sementes de papoila torna-as passíveis de infiltração de camadas com diferentes cronologias. Datar as sementes diretamente fornecerá uma baliza temporal segura para a sua difusão (Q2,Q3). Um projeto liderado por membros da equipa, mostrou recentemente que, apesar do seu pequeno tamanho, as sementes de papoila podem ser datadas, e nós iremos alargar este sucesso inicial[C]. Não só elucidaremos as origens da papoila, mas usaremos esta espécie como um caso-de-estudo do papel de oleaginosas no Neolítico. As narrativas sobre a agricultura primitiva têm sido baseadas apenas em espécies alimentícias (cereais, legumes), enquanto espécies utilizadas para propósitos diversos têm sido ignoradas. No entanto, a papoila é encontrada nas duas principais culturas Neolíticas da Europa (Cardial e LBK), o que atesta a sua relevância na época. Adicionalmente, se ficar demonstrado que a espécie foi domesticada no Mediterrâneo Ocidental, isso ilustrará a capacidade dos primeiros agricultores europeus de usarem espécies nativas valiosas e não apenas aquelas que trouxeram do SOA. O papel da papoila na emergência do mundo moderno tem atraído a atenção de historiadoras. Aqui propomos o primeiro projeto multi-disciplinar exclusivamente dedicado a investigar a sua origem. Os dados gerados serão de grande importância para as indústrias alimentares e farmacêuticas já que a papoila continua a ser uma fonte de novos medicamentos e é uma importante colheita alimentar com cerca 70,690 toneladas produzidas em 2017 (FAO)

Referência do projeto
PTDC/HAR-ARQ/1709/2021 "DOPE"
Tipologia
Investigação e Desenvolvimento
Data de aprovação
Data de início/fim
/
Tipo de Financiamento
Fundos Nacionais
Custo total elegível UAlg
244549.70
Financiamento Nac./Reg. UAlg
244549.70
Entidades beneficiárias

Universidade do Algarve

Financiamento

"logotipo FCT"